Convido você a visitar-me, também, em escrivinhações que fazem parte do meu andar-andor.
"Se música fosse literatura, que história contaria?"
| FEIST WE´RE ALL IN THE DANCE Recontado por ANA LÚCIA POMPERMAYER O Cinco Estrela é uma lanchonete. Mas é também o palco da história de Francine e John Lenon. Por Ana Lúcia Pompermayer Saiba + LANÇAMENTO: 07/10/2008 |
"Em Cloé, cidade grande, conforme Calvino, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Quando se vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam. Entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva sob o pórtico, ou aglomeram-se sob uma tenda do bazar, ou param para ouvir a banda na praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo, quase sem levantar os olhos.
Quanto a mim, há um ano resolvi sair de Cloé; invertendo sua lógica; desde que reencontrei certo olhar oceânico. E não me arrependi." (Meu oceano hoje está mais cheio e salgado. Dá para beber pequenas lágrimas dele.)
Mercúrio, de pés alados, leve e aéreo, hábil e ágil, flexível e desenvolto, estabelece as relações entre os deuses e entre os deuses e os homens; entre as leis universais e entre os casos particulares; entre as forças da natureza e as formas de cultura; entre todos os objetos do mundo e entre todos os seres pensantes; entre as escolhas e as técnicas; entre os altos vôos e os sentimentos errantes; entre os depois, os agora e os antes; entre os nunca, os sempre e os de agora em diante... Portanto, viva Mercúrio: enquanto sóbrios, moderados ou delirantes. LZQ, scrap. Chamam-no de Trapaceiro: ele, Hermes, o Mercúrio. Filho da luz espiritual com as trevas primordiais. Encheu de lisonjas o irmão Apolo, recebeu dele o dom da adivinhação. Tornou-se o mestre dos quatro elementos e ensinou aos homens as artes da geomancia, piromancia, aeromancia e hidromancia. É o guia que, de dentro de nossos interiores escuros, indica a direção. Mas Mercúrio não vem quando é chamado, Deus embusteiro que é. Nem sempre responde àquela que pensamos ser uma situação importante. Atira-se do Olimpo e atravessa os céus com a rapidez de um raio, mas só chega à noite, disfarçado de sonhos perturbadores. Ou sugere subitamente a descoberta daquilo que sabe-se mais do que se imagina. Ou menos. Regula a harmonia das frases.Serve ambrosia aos Deuses. É reverenciado nas encruzilhadas. Então, vivas a Mercúrio. ALP, scrap.
Porque um dia é luz de outono, povoado de movimento, dança de folhas e pessoas que se confundem. Que, se você reparar bem, às vezes são felizes. Porque um dia é movimento e vida toda, solidão e todo mundo. Pode ser percorrido inteiro, ou em pedaços, passo a passo. Deliciosamente mastigado, nunca engolido inteiro. Porque um único dia é sol e lua, dois lados, mas um só. Silêncio e vozes, muitas, todas formando os tempos que, para entendermos, tivemos que dividir em horas e suas lapidações. Vida inteira em compassos de doce (en)canto, igual quando andamos sob árvores que deixam escapar, entre as folhas, fragmentos quentes de luz. Porque um dia, qualquer dia, é luz de outono, fugaz vida inteira. Fugaz dia que, em si, traz dois olhos que fecham. E o inverno, gelado, que os faz dormir. 15 de maio de 2008.
Procuro alguma mensagem-pista do teu andar-andor. Agora sei que é tudo tal e qual igual. Que os sinos dobram por ti. Que andas, escreves e comes. Que encontras a página sempre vazia no dobrar, desdobrar e redobrar infinito. No exercício duro do pensar pesado neste teu pensamento trágico. Pele e ossos (quase poeira). Manhã fria do estio que não passa. Saber nada de usted e tentar adivinhá-lo no revés-revesgueio. Isso, em si, ponta de felicidade para o caranguejo em sua pequena ilha de brinquedo - na qual também adentram os fantasmas, os espectros e os objetos parciais, embora soçobrem ao lençol de seda -último reduto - que cobre a mim e a esta outra eu. E este estar fantasioso, sem fundo, quase fuga em que se transformou aquilo que se quer. Sequer bombons e bijuterias. Sequer desejos. Na folha dobrada o vazio, na folha dobrada, pó. Abri-la e o risco de perdê-la. Folha-pó em sua forma condensada e branca, insetos que a percorrem. Uma traça abre caminhos no desenho do papel de presentes, desenhando padrões, penetrando as dobras. Escolhe uma cor e faz seu percurso e acaba com ela. Agora, cor é vazio. Espaço negativo. Melhor nem mexer neste papel. Um toque e deixa de existir. Vai ficar assim, intocado, na gaveta. (fragmentos e inventos de uma conversa com amigo da praia.) Maio de 2008
Não mais tentativas, nem apelos. Não mais apelos. Não mais. Confirmado, os amores são líquidos. Escorrem pelos dedos, todos vêem. Inútil qualquer tentativa de retê-los. Hoje, mentimos: dignidade é deixar que escorram. __________________________________________ O nó que aperta tal garganta poderia ser aquele que estrangula, mas não o faz. Simples como um enguasgue, falta o ar, mas não é nada. E nada acontece, além da sensação de morrer. Porque não mata, só parece que o faz. O dono da garganta continua vivo, agonia que nem sabe do que. Mentira: bem dentro sabe. Bem dentro, lá onde a garganta pensa estrangular. E rogai por nós, dessa sacristia que incinera e pune, pecadores, agora e sempre, no sempre mesmo segundo, por todos os séculos e séculos, sim, a tortura do garrote é eterna, amém. Ana Lúcia Pompermayer, em maio de 2008.
Eram quatro tias em uma casa. Eram muitos primos ao redor. Celinia Alvinia, Amabile Anunciata, Alfrea Emelves e Clair. Elena, Bi, Elza e Lili para nós, os sobrinhos. Certo, Bi e Lili eram apelidos. Mas, por que as outras tinham os nomes mudados? Seus nomes de batismo só eram lembrados em seus velórios. E as mesmas perguntas: por que dois nomes? Um no batismo, outro no cartório. Explicações, nos velórios. Celinia sobreviveu às irmãs. Noventa e cinco anos, cuidadora da família. Das irmãs doentes, até o fim. Sua missão: ir depois delas. Ela e os cadernos de receitas, as primeiras letras, tia-oráculo. Aprendi a escrever com tia Elena, na mesa da cozinha. Tia das palavras corretas, professora. Contava, ia à cavalo, quilômetros pela colônia, a dar aulas. Assim criou os irmãos, seis, sem mãe desde cedo. E um pai sofrido, frágil, que foi-se indo também. Criou sozinha, a cuidadora. Ou melhor, sabia distribuir a tarefa de (bem) cuidar. Organizava o cuidado d’uns pelos outros. Enfim, tratou do cuidar de irmãos e irmã que casaram, das irmãs que ficaram na casa, dos sobrinhos que nasciam, nasciam, nasciam. Mama italiana sem nunca o ter sido no ventre, mas na atitude de uma. Abrangente e conselheira. Poderosa tia. E tinha a Amabile. Na cadeirinha de saia, imensa saia entre as pernas, nos embalávamos e ouvíamos os contos de fadas. Foi tia Bi. Me conduziu pela fantasia da roca e da ponta do dedo sangrando, do João e do pé de feijão, do João e Maria pela mata, nos caminhos de pão para a volta. Tia Bi corria o mundo, mas pouco saia de casa. Lia os jornais, conhecia todos os lugares, comprava fascículos, fazia coleções. E eu, imaginação solta, pelos países da Terra, da estratosfera ao núcleo, folheando suas enciclopédias. Bi sabia o que acontecia no mundo. Também fazia marmeladas, uvadas e pessegadas. No tacho. Amabile Anunciata era nossa amável bruxa de saia preta e chapéu, mexendo imenso tacho fumegante, borbulhante. Esperta, viva, mas tinha medo das catástrofes. Contra tempestades e seus efeitos nefastos, janelas fechadas, velas pra Nossa Senhora e folhas de louro pela casa. Pelas tantas, ia perdendo a lucidez. Indo, indo, entrava num conto de fadas (de onde saíra, por certo). Seria-lhe insuportável este mundo? Pequeno demais para ela. Dez anos se indo. No coma, outro mundo percorria, ia longe, eu sei que ia. Alfrea. Nome de elfo. Tia Elza, a gente dizia. Tia Elza. Muita conversa, curiosa, muita pergunta. Tinha sido telefonista, contavam, por isso. Vivia pelas redondezas, conhecia cada canto, cada história da rua. Elza das vizinhas, do mate doce, das novidades. Quantos quilômetros percorria? Sempre por perto, nas casas, pelos quintais tomando mate. Rosto redondo, corado, roliça, pesado corpo, temperamento difícil. O derrame passou a movê-la da cama à cadeira de rodas. Quanto incômodo, hein, tia Elza? Não poder mais “sacudir as tranças”. Ficar presa, praticamente sem movimento ou fala. Anos assim. Partiu quatro meses antes da tia Elena. Zelar por ela, a última missão da irmã mais velha. E tia Elza sabia de tudo... Lili, a mais nova. Meiga, a mais frágil. A Clair professora, fez faculdade de arte. Tradição da família, deve ser. Quatro professoras de arte. Até eu. Tia Lili diretora de escola, das aulas de catequese, Lili da Brasília creme. Não era amarela, mas quase. A Brasília foi a última mulher solteira a deixar a casa. Guinchada, levada por um rapazote da colônia, feliz com o brinquedo novo que, diz, vai fazer andar. E nós, crianças, na Brasília: música no rádio, nas tardes dos domingos frios. Calor lá dentro e cheiro de bergamota. Eu na escola da Lili: merendas de leite em pó. Lili doce e vulnerável, instável, se foi primeiro. A primeira a ser levada na lenta fuga da Bi. Insuportável ida tão lenta, ela se foi muito rápido, quando sentiu, tinha ido. Seus olhos me olharam antes de ir, eu lembro. Sua mão apertou a minha, antes do hospital. Pressão marcada em meus dedos. Minha mão foi ficando cada vez mais parecida com a dela. Elas se foram de casa. Elena, a última. Com ela, último fio da infância. Foi delas, o presente da infância livre, os laços com os parentes. Por sua casa vivemos juntos, meu irmão e eu, meus primos. Andamos pelas ruas, dia e noite, por todos os quintais e terrenos baldios, em cima das árvores e pilhas da madeireira, jogando vôlei à noite, bem no caminho dos carros. Poucos, naquela época e que paravam pra nós. E, lembro, os intervalos para o lanche. Torradas ou bolinhos de chuva no final da tarde. Pipoca e puxa-puxa, esticado, dourado. Depois do lanche, pausa. Batman, Perdidos no Espaço. E, afinal, o melhor: rua de novo! O dia acabava quando o pai e a mãe chegavam. Dez, onze horas da noite, três turnos de trabalho. Nosso intervalo na vida: ir para a própria casa, dormir, escola e, finalmente: casa das tias e rua! Primos e rua! A rua, meus primos e tias: a linha que ata a minha infância. Que amarra os pacotes dos presentes das fadas madrinhas e bruxas, com direito a vento na cara e noite bem sonhada. Presentes de criança feliz. E elas têm culpa disso. Ana Lúcia Pompermayer, 9 de maio de 2008.
 | cerejar | May 4, '08 7:47 PM for everyone |
cerejacerejeiracerejandocaiemfloresetrazfrutasuculentadocecarmimtuabocapinta. Ana.
E alguém, da alegria, em algum lugar, em qualquer dia, escreveu: "Bela tarde, bela! Trago um laço negro em meus dentes Pedaços de carne crua Uma vermelhidão suportável E visões sem precedentes."
Lua crescente, quase cheia. Cada vez que chego perto do mar, alguma coisa me chama nele, sei que um dia serei dele, seremos um, eu e mar, mar Sirena, Sirenamar. Girar mundo pelo mar. Bem, basta a Terra, já que ir até a lua vai demorar um pouco mais. E deve ser muito chato por lá. Isso eu vou fazer: girar a Terra inteira, pelo mar! Poderia ir nadando, mas barcos e navios são confortos que me atraem. Voar também é uma possibilidade interessante, talvez pra quebrar algum galho. Mas o mar... Ah,o mar... Só trocaria viagens marítimas por viagens de guarda-chuvas. Mas eles não me levam muito longe: daqui para ali, só isso. Nossa, isso foi um grito? Foi um grito! O barulho vem do mar! Tá, rápido, Sirena, corre, putz, não vejo nada, só queria ver o que está acontecendo, que escuro, nossa, tem gente lá dentro d’água, ai, é lá, não posso ir, sabe lá o que está acontecendo, ai! Água gelada! (pensa que ela não gostou? Adora este arrepio...) Ai, que medo, Deus me ajude, que eu faço, putz, vou lá, azar, vou lá, saia que me incomoda, droga, ai,ai. (Prazer, medo e prazer, água fria, mão do mar, leva a sereia, leva a sereia...) Pessoas, sim, são duas, barulho, água, sufoco, movimento, engasgue, AFOGAMENTO! (Seus olhos enluarados já vêem claramente; seu corpo precisa ir, ela precisa fazer alguma coisa.) - Pára! Larga! Laarga! - Sai daqui! - Solta! (Luta, Sirena ataca: homem forte x mulher frágil. Muda o foco: pessoa sendo afogada – mulher 1- foge, busca a praia. Violeta – mulher 2 – quase afogada.) - Maria! Vem cá! ( Muda o foco: homem segue mulher 1; mulher 2 abandonada no mar) Meu mar... Me leva... Quem sabe agora me torno espuma, quem sabe água, quem sabe sal... ( Não adianta, Sirena ainda não é seixo, nem concha, nem peixe: o mar, suave, a devolve `a areia.) Ai, dói tudo, ai,olha lá, são os dois! Se abraçando. É ela! Está abraçando o canalha! Ah, não! Vou lá! - Escuta, ‘ta’ consolando o canalha? - É o meu marido, não é canalha! - Como assim? Ele estava tentando TE MATAR! - E o que tu estavas fazendo lá na água? - EU?! Tu tentavas matá-la, o que tu achas que EU estava fazendo lá? - Qual é a tua, garota, que história é essa de ‘te meter’ em nossa vida? - Vem, meu amor, vamos embora! Eu cuido de ti. Tem gente louca por aqui! Os cabelos dela parecem cracas. (Sai o casal. Sirena, pasma.) Lua, lua, me busca, lua. Selenitas também serão assim? Bela lua... Assim morrem as mulheres, nas mãos dos homens que protegem... ( Folha de São Paulo, 25 de fevereiro de 2008: “Corpo de mulher é identificado pelo marido.” A foto: marido desolado. Sirena sente um arrepio percorrendo sua coluna.)
Sirena Pele clara, tinha um “eu-sei-muito-bem-o-que” de promessa nos olhos, cabelos curtos e compridos. Andava com passos leves, parecia voar. O seu signo era o décimo primeiro do zodíaco, situado entre Capricórnio e Peixes e associado à constelação de Aquarius. Talvez por ter nascido junto ao mar, era o que era; talvez porque assim destinassem seus astros. Tinha a mania de conceituar e explicar o universo. Parecia entendê-lo perfeitamente. Como também diziam dela – e de seu signo – cultivava profundo respeito e amor pela liberdade, cooperação com a humanidade e um olhar criativo para o devir. Signo de ar. Daqueles que chegam ao fundo de si pela comunicação perfeita com o mundo. Mas tropeçam e quebram coisas pelo caminho. Sua cor era azul e sua pedra, água marinha. Suas partes do corpo mais sensíveis: tornozelos e sistema nervoso. Sim, confirmando as previsões astrológicas, ela era leve – tinha corrido muito e fazia isso sempre, primeiro percorrendo quilômetro de areias e chutando as ondas, depois correndo mundo como um Mercúrio com asas nos pés – e um tanto contraditória. Ao mesmo tempo em que era serena e plena de maresia, também vivia tempestades por dentro. Fortes ondas, naufrágios e pedaços jogados às pedras. Dizem que isso a tornava assim, imprevisível. Vertia pérolas e conchas coloridas quando falava, mas serpentes marinhas em alguns momentos de silêncio. E elas saiam pelos olhos: queimavam algumas vezes. Dizem, também, que isso a levou de nós. Suas tempestades por dentro. Seus maremotos incontroláveis. Tsunamis. Certa vez andava eu pelo mundo, não lembro se ainda acreditava em sereias, e ela estava lá, na minha frente. Jamais voltaria a duvidar de que elas existissem. Estava em Toledo, visitava a casa de Domenikos Theotocopoulus, El Greco. Ela apareceu por perto, descendo uma viela de pedras amarelas. Me perguntou qualquer coisa, seu espanhol era muito ruim e sua voz, encantadora. Sim, literalmente. Um canto de sereia que me tirou de mim, mergulhei em suas marinhas profundidades. Naufraguei, tornei-me um casco de navio no fundo dela. Bem, ela perguntou coisa qualquer, eu respondi coisa qualquer, só queria ouvi-la, precisava ouvi-la, enlouqueceria se não a ouvisse. Ela se ia, e meu destino de leão de fogo, filho do sol, era rastejar a seus pés, segui-la incodicional e loucamente. Primeiro foi sua voz, depois seus cabelos, então longos – sim, ela os deixava crescerem muito, depois os cortava, a surpreender a todos. Sempre assim: longos e repentinamente curtos, previsivelmente assim, surpreendentemente assim. Doido náufrago a segui, fiz seu roteiro, olhamos ambos para a Toledo sombria e plúmbea de El Greco. Ela olhava para aquele genial tormento e as lágrimas caiam, tremia um pouco, me parecia. Aquele era o sinal, percebi como deveria ser por dentro. Ou nada notei? Ora, um homem enfeitiçado não tem esse discernimento. De lá, continuei a segui-la e foi entre armaduras e espadas que voltei a falar com ela. E nunca mais parei. Porque não podia deixar de ouvi-la. Jamais. Minhas falas só eram deixas para as suas. Sempre. Ficamos juntos. Paramos na murada medieval, olhamos o rio em volta de Toledo. Seguimos adiante, íamos e vínhamos, eu sempre atrás dela, espadachim servil, Leão de Espanha domado em uma coleira dourada. Foi o que restou de meu brilho. Certo dia, após uma noite em que mais uma vez tive orgasmos de me enroscar em seus cabelos, ela os cortou. Simples assim, cortou. Curtos, muito curtos, minimamente assim, curtos. Assim surpreendia, assim previsivelmente surpreendia, cada vez em que muitas vezes os cortava. Então a seguia, mundo afora, mas nossa casa era lá, junto ao mar. Eu, afogado desde o início.Ela, mar imenso, sereno a me afagar, maremoto a me matar. Um dia, ela percebeu isso. Isso: que meus olhos tinham uma febre mortal por dentro. Amarela. Olhou para mim, ternamente. Nenhuma serpente nos olhos, mas nada falou. Foi. Simplesmente assim, tão simples assim, se foi, assim, me deixou, assim. E eu, naquela casa. Só, naquela casa. Pequena casa, em frente ao mar. Infinito mar, assim, grande demais. Incontável e incontido amar. Indomável mar. Indecifrável mar. Ana Lúcia Pompermayer. Fevereiro de 2008.
Pessoas queridas! Recebi da amiga Rosa e quero dividir este carinho com vocês! Muita paz! Ana Lúcia. Receita de ano novo Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. Foto: Cais do Porto (Alegre) by me.
Insone e imprecisa, impossível silenciar a saudade que sinto de ti. Insistente e só, simulo as asas tuas que roçam de joelhos a axilas. Sibilam brisas, soletram ais. (imagem: do filme Nas Asasdo Desejo, Wim Wenders)
Cantares do Sem Nome e de Partida I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida. II E só me veja No não merecimento das conquistas. De pé. Nas plataformas, nas escadas Ou através de umas janelas baças: Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias E só me veja no não merecimento e interdita: Papéis, valises, tomos, sobretudos Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar de púrpura e desgosto, vendo através de mim navios e dorsos). Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes. Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis Machucadas de gozo. E que jamais perceba o rocio da chama: Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
III Isso de mim que anseia despedida (Para perpetuar o que está sendo) Não tem nome de amor. Nem é celeste Ou terreno. Isso de mim é marulhoso E tenro. Dançarino também. Isso de mim É novo: Como que come o que nada contém. A impossível oquidão de um ovo. Como se um tigre Reversivo, Veemente de seu avesso Cantasse mansamente. Não tem nome de amor. Nem se parece a mim. Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso Dançarino e novo, ter nome de ninguém E preferir ausência e desconforto Para guardar no eterno o coração do outro.
IV E por que, também não doloso e penitente? Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro. E isso sem nome, o despedir-se sempre Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias Isso sem nome fere e faz feridas. Penitente e algoz: Como se só na morte abraçasses a vida. É pomposo e pungente. Com ares de santidade Odores de cortesã, pode ser carmelita ou Catarina, ser menina ou malsã. Penitente e doloso Pode ser o sumo de um instante. Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte. Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.
V O Nunca Mais não é verdade. Há ilusões e assomos, há repentes De perpetuar a Duração. O Nunca Mais é só meia-verdade: Como se visses a ave entre a folhagem E ao mesmo tempo não. (E antevisses Contentamento e morte na paisagem). O Nunca Mais é de planície e fendas. É de abismos e arroios. É de perpetuidade no que pensas efêmero E breve e pequenino No que sentes eterno. Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.
VI Tem nome veemente. O Nunca mais tem fome. De formosura, desgosto, ri E chora. Um tigre passeia o Nunca Mais Sobre as paredes do gozo. Um tigre te persegue. E perseguido és novo, devastado e outro. Pensas comicidade no que é breve: paixão? Há de se diluir. Molhaduras, lençóis E de fartar-se, O nojo. Mas não. Atado à tua própria envoltura Manchado de quimeras, passeias teu costado. O Nunca Mais é a fera. VII Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus. Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos Porque me fiz tanto de ressentimentos Que o melhor é partir. E te mandar escritos. Rios de rumor no peito: que te viram subir A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras Mas com a mulher, aquela, Que sempre diante dela me soube tão pequena. Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os. Perdi-me tanto em ti Que quando estou contigo não sou vista E quando estás comigo vêem aquela. VIII Aquela que não te pertence por mais queira (Porque ser pertencente É entregar a alma a uma Cara, a de áspide Escura e clara, negra e transparente), Ai! Saber-se pertencente é ter mais nada. É ter tudo também. É como ter o rio, aquele que deságua Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns. Aquela que não te pertence não tem corpo. Porque corpo é um conceito suposto de matéria E finito. E aquela é luz. E etérea. Pertencente é não ter rosto. É ser amante De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã. Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender. É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse" Que bem me sabe inteira pertencida.
IX Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem. Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso. E pensas maravilha quando pensas anca Quando pensas virilha pensas gozo. Mas tudo mais falece quando pensas tardança E te despedes. E quando pensas breve Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha. E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas Luta, ascese, e as mós vão triturando Tua esmaltada garganta... Mesmo assim mesmo Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas... Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade A esperança. X Como se fosse verdade encantações, poemas Como se Aquele ouvisse arrebatado Teus cantares de louca, as cantigas da pena. Como se a cada noite de ti se despedisse Com colibris na boca. E candeias e frutos, como se fosses amante E estivesses de luto, e Ele, o Pai Te fizesse porisso adormecer... (Como se se apiedasse porque humana És apenas poeira, E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia). Como se fosse vão te amar e por isso perfeito. Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se. E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego O Seguidor disso sem nome? ISSO... O amor e sua fome.
[Hilda Hist 1930-2004] (imagem: Destiny, John William Waterhouse)
KHzine Calembures ignóbeis, falsidade ideológica e comportamentos execráveis. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Connecticut. Outrotubro de 2007. Edição ESPECIAL de Lançamento do livro do Lehgau-Z Qarvalho: A Teoria das Sombras Para ser lida, por óbvio! ___________________________________________ Periodicidade? Tem não! __________ Editorial Bem, bem, bem, caríssimo(a) leitor(a) deste KHzínico meio de (des)informação aplicada, nós (eu, eu mesmo e o Otto) temos o prazer de apresentar-lhe – em primeiríssima mão (pé, cabelo e maquiagem)-, o grande, o fenomenal, o “é um pássaro; é um avião, não... é Ele...”, o verbo, o livro... enfim, a estréia do Lehgau-Z nos complexos meandros da narrativa longa (média, média), intitulada, pois: A Teoria das Sombras. E, por conseguinte, a nossa primeira edição ESPECIAL (não é o máximo! ES-PE-CI-AL, assim, em caixa alta e tudo, huummmm...). Você vai deliciar-se (sim, nós temos certeza), caríssimo(a) leitor(a), com os pequenos trechos extraídos dessa tão magna obra a ser lançada em 04 de outubro do corrente ano, na fabulosa, excepcional, maravilhosa, espetacular, bacanérrima: Palavraria! Que fica na Vasco da Gama, 165, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, e cujo número de telefone é 3268 4260. Os “textículos” extraídos (AAAiiiiiiii) aqui incluídos, foram gentilmente cedidos pelo tão agradável (meio aluado, é bem verdade) e supimpa autor. É claro que ele, o Lehgau-Z, deu-nos uma ajudinha aí para que pudéssemos colocar em dia a conta da água, da luz, da padaria, da florista (sim, nós temos sensibilidade) e, como não poderia deixar de ser, do boteco (sim, também não somos de ferro). Mas, NÃO, não rolou jabá de forma alguma. Queremos deixar muitíssimo claro aqui, desde já, que somos, sim, radicalmente contra tais práticas absurdas de apropriação indébita de cascalho alheio para fins, tanto escusos, quanto ilícitos, de manipulação ou apalpamento da opinião pública (UFA!). Dito isso, deixamos a palavra agora com o mestre, escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil, que, para a efusiva alegria do autor, prefaciou o livro do Lehgau-Z (Uh, lá, lá!!!): “Quem conta uma história na primeira pessoa sabe: nem todos irão acreditar. A literatura tem dessas coisas, e aí está o seu maior encanto, esse ficar entre a mentira e a verdade. Você, que tem este livro entre as mãos, deve embarcar na aventura sem maiores questionamentos. Pense em seu tempo de criança e no quanto acreditava nos contos de fadas. Ou mesmo agora, quando você lê um romance ou vê um filme de ficção científica. Uma coisa é certa: isso não será difícil, porque se trata de um livro muitíssimo bem escrito. Nada falta, nada sobra, é um texto impecável que, embora se mantendo simples, é dotado de uma excepcional sofisticação, revelada pela frase bem construída, pelo léxico preciso, por algumas imagens raras e poéticas. Quero dizer, em outras palavras, que o autor não começou hoje, e que tem muitos anos de estrada. Isso você vê pelo texto, sim, mas também pelas múltiplas alusões culturais espalhadas aqui e ali. Muitos tentam fazer isso e acabam numa deplorável colagem sem algum sentido. Isso, o bom texto, já seria o suficiente para que você não o largasse de mão. Mas há mais, e esse mais está na história contada. Uma personagem que se envolve em assassinatos, em ações politicamente incorretas, em estripulias de toda ordem. Você segue adiante nesse mundo patético, querendo saber o que acontece depois e depois e depois – e assim chega recompensado ao final do livro com uma obra de grande força. E você, é certo, vai repensar um pouco a sua vida. Há vários momentos em que A teoria das sombras envereda pelo ensaio, mas, concordemos ou não com suas idéias, elas são expressas com tal naturalidade que parecem fazer parte da ficção (ou fazem e eu não percebi isso?). Lehgau-Z Qarvalho, como todo escritor, faz uma promessa a seu leitor, e essa promessa ele a cumpre, a de contar uma boa história. E ela começa quando o protagonista encontra e se apaixona por Simone, e o “de Beauvoir” não será apenas um acaso. Não vou dizer quando termina, nem o que acontece a esse amor. Procure. Isso não será difícil. É só deixar-se levar pelas artes da literatura que estão, em pleno, neste livro.” Luiz Antonio de Assis Brasil Sem mais delongas: “Pára, pára! Tá doendo, tá doendo! Você vai me arrebentar toda...” “Você já leu Dostoiewski?!”, berrei enquanto puxava seus cabelos com força. “Crime e castigo? Hein?”, continuei. “Já leu Henry Miller? Hein? Charles Bukowsky? Já leu? Rubem Fonseca? Edgar Allan Poe? Nelson Rodrigues? Hilda Hilst? João Gilberto Noll? Caio Fernando Abreu? Daniel Pellizzari? Kerouac? Jack Kerouac? Fante? Não?! ” Em poucos milésimos de segundos, seu cérebro estava espalhado pela calçada e a Magnum fumegava nas lindas mãos de dedos longos e unhas perfeitas de Simone. Ela soltou um suspiro profundo, cuspiu para o lado e disse: “Hiurrurru!” Encostou seus lábios em minha orelha e sussurrou: “Isso me deixou molhadinha.” O ladrão de galinhas não sabia se ria, chorava ou segurava a urina. Optou pela primeira situação e molhou as calças. Perguntei do que estava rindo. Ao que me respondeu, sem conseguir ocultar o nervosismo: “Por acaso, vocês são dos Direitos Humanos?” Durante o tempo em que rodávamos espreitando uma oportunidade para fazer o serviço, listávamos possíveis futuras vítimas para encarar a Magnum e, assim, limparmos o sistema. “Políticos!”, sugeriu empolgada. “Não sei. Precisamos de verdadeiros responsáveis pela miséria humana.” “E eles não são?!” “Querem nos fazer crer que sim, mas não passam de meros fantoches. São pagos, e muito bem por sinal, para apanhar. O fato de serem malvistos e malfalados não os incomoda como pode parecer aos mais incautos... “Esquerda e direita são coisas do tempo em que o mundo se pretendia dividido em apenas duas partes, uma total e necessariamente contrária à outra. Ou preto ou branco, ou claro ou escuro, ou salgado ou doce, ou mocinho ou bandido, ou o bem ou o mal, enfim, ou isso ou aquilo. Mas, de fato, nunca foi assim.” Freud tinha razão. Marx, por sua vez, falhou em não pensar nisso ao escrever O Capital. Talvez por isso sua doutrina, quando posta em prática, tenha fracassado tão drasticamente. Já o capitalismo captou desde sempre essa questão em toda a sua singela complexidade, e levou-a às últimas conseqüências. O que seria da publicidade se nos assumíssemos como brochas convictos? Estava tão alto que decidi pagar uma rodada de Big Mac’s com batatas grandes para todos os presentes. “Não posso entender por qual motivo”, argumentei então, “Madonna não ‘afronta os valores vigentes’ também. Só que os de duas ou três décadas depois. Assim como Janis, usando roupas escandalosas e fodendo com todo mundo. Aliás, entre Janis e Madonna na cama, eu fico com Madonna sem pestanejar.” “Suponho que isso tenha a ver com a carne vermelha, estou certo?” Fiz cara de bobo. “É, é. É exatamente o que eu tô tentando dizer também. O consumo de carne vermelha leva à total agressividade.” “Puuuuuxa! Isso é incrível! Você é muito bom nisso, hein! E, supondo que você já tenha consumido meia Colômbia em forma de fumaça, a essa altura já deve ter descoberto QUEM são Eles, O QUE Eles querem e DE QUAL FORMA estão agindo, certo?” “É senso comum que crianças e adolescentes devam ser incentivados à prática esportiva. Os argumentos variam da saúde e boa forma ao sentimento de coletividade e competitividade. São esses dois últimos que complicam as coisas: como posso competir, tentar ganhar, vencer o rival, dobrar o inimigo e torcer por ele ao mesmo tempo? O ser humano, através do esporte, já é moldado para o embate e a hipocrisia desde muito cedo.” O Silêncio diz mais sobre o amor, do começo ao término, do que qualquer ato desesperado, despreocupado, excitante ou qualquer outra alternativa possível. ...arqueando-se no banco, soltou o botão, arriou o zíper, baixou as calças, tirou as calcinhas e abriu as pernas. Os olhos do homem pareciam que iam saltar de suas órbitas empapuçadas. De gorjeta, ainda deixou um seio à mostra por completo, levou-o à boca e lambeu o próprio mamilo, passando a outra mão entre as pernas e chupando o dedo indicador logo em seguida. O maxilar inferior do desgraçado arriou até o umbigo. Suas pestanas não se moviam um tosco milímetro. Estava no céu e não sabia direito por qual gratificante razão. Não tinha sequer tino para aplicar um pesado beliscão em seu próprio braço. “Sim, pois não? O que seria?” Perguntou calmo e em grave tom de voz. “Seria que nós viemos aqui para almoçar”, retruquei. “Não servimos almoço aqui”, continuou sereno. “Ah, não?! Então pode mandar servir a janta. Adoramos jantar no meio do dia. É que somos notívagos, sabe? Trocamos o dia pela noite. Como vampiros, entende?” Levantei os lábios superiores com os dedos deixando os caninos à mostra. “E nós somos os crucifixos e a água benta”, soltou mantendo a fisionomia impávida e limpando a unha do dedo mindinho com a ponta da afiada lâmina. Gostei dele. Sabia trabalhar com as palavras. Era ágil e rápido como uma lebre. É quase desnecessário dizer que esse seu último gesto seria, literalmente, o último. Mas eu estava querendo ver até onde aquilo iria. Além do mais, ela estava com desejo de comer carne crua. E eu com desejo de saciar os desejos dela. Se eu fizesse o que esperava que fizesse, teríamos de sair dali no mesmo instante. Eles eram muitos e com facas nas mãos. E eu sem a Magnum. “Está gostoso, garanhão? Hein, meu patrão? Meu senhor do engenho. Raça superior. Será que seus ‘antepassados’ gostariam disso? Hein? Aposto que nunca fizeram sexo tão gostoso assim. Hein? Será que eles eram tão descorteses para com uma dama como você? Agora você vai poder perguntar para eles pessoalmente, seu boçal, bronco, covarde, estúpido, imbecil...” ...pegou um dos espetos, já devidamente ‘descarnado’, de cima da mesa, sentou de pernas bem abertas na frente do cérebro de minhoca ancestral e passou a brincar com o cabo do utensílio, esfregando-o entre as próprias pernas e jogando a cabeça para trás e uivando de prazer. Logo, levantou-se e disse incisiva: “Vamos ver se isso aí funciona mesmo!” ...parecia um tanto aflita. Como se intuísse algo de ruim a desdobrar-se nos próximos momentos. Fiz sinal com o dedo para que ela se aproximasse. Pulou para o banco de trás e aninhou-se em meu colo. Os céus, então, transbordaram de vez. Ficamos longos e saborosos minutos em silêncio, operando pequenas carícias um no outro. Logo, percebi o chão sumir, o teto se deslocar e meu corpo flutuar lúgubre. Eu estava leve e, logo, muito sereno. As escotilhas do meu cérebro pareciam ter sido abertas, e uma brisa leve penetrava envolvente e apaziguadora. Eu tinha apenas dez anos de idade e conversava com meu pai sobre pescaria. Primeiro, meu cérebro começou a encolher como o de um presidente da República de um país em guerra. Sentia o crânio oco. Depois, meu sangue passou a borbulhar. O coração batia lento. Meus dedos foram ficando curtos. E depois as mãos. E as pernas. E todo o corpo. E aí, sem mais nem menos, fui sugado para dentro do buraco no tronco da árvore. Pensei: só falta agora me aparecer um coelho com um imenso relógio dependurado no pescoço a passar rápido por mim berrando que está tarde. Eu escutava aquele monte de lamúrias com certo desinteresse até que, já um tanto aborrecido, perguntei-lhe se nunca havia lhe ocorrido, durante toda a sua carreira, ou mesmo naquela ocasião, trocar de ofício. Ou trocar de família. Ou, ainda, trocar de vida. Antes que pudesse responder qualquer coisa, perguntei-lhe também se já havia pensado no que estaria fazendo naquele exato momento se tivesse nascido sem as pernas ou sem os braços ou sem a visão. L dormia de duas a três horas por dia. Passava as noites inteiras fuçando na rede mundial de computadores e em seus aparatos tecnológicos. Devia ter umas vinte máquinas montadas e em pleno funcionamento. Todas interligadas. Não apaguei por completo. Eu ouvia o que diziam, mas não conseguia enxergar nada. Estava no escuro. Fui levado para a casa de alguém que morava ali por perto. Sentia tapas ansiosos na cara e copos com água sendo derramados em meu rosto e lindos versos de um poema ignorado. Não éramos nem ácido nem base nem nada. Trazíamos o pH, nem mais nem menos que sete. Éramos substantivos não animados. Condutores com potencial zero em um circuito de corrente alternada. Rochas com porcentagem de sílica variando entre cinqüenta e dois e sessenta e cinco por cento. Não nos posicionávamos. Abstínhamos de tomar partido. Sem marcação ou clareza. Imprecisos. Vagos. Indefinidos. Indiferentes. Éramos neutros eletrônica e quimicamente. Ao amanhecer, fizemos sexo. ...acrescentávamos loops e ruídos eletrônicos, colocávamos uma boa batida, ou não, e liquidificávamos o total formando uma grande salada rítmica, cultural, arquitetônica e espiritual. E tudo feito em casa e com não muitos recursos técnicos. Apenas, é claro, com uma razoável placa de som inserida em um computador pessoal. Ao acordar, pairava sobre mim uma sucessão de jamais-vécus. Eu era um peixe só, encerrado em um homeopático aquário. A cada volta ao meu entorno, tudo era novo e desconhecido. A morte nos faz assim. Ou a consciência milimétrica da sua existência. Depois é só depois. Agora é o que temos. E é somente do que dispomos. Ao primeiro gole, minha alma passou a colorir-se, paulatina. Os olhos se posicionaram novamente em sua órbita habitual e meu cérebro se expandiu até preencher por inteiro a caixa craniana. Eu estava de volta. Para provar a mim mesmo como as pequenas e corriqueiras coisas podem salvar nossas vidas. Levantei-me dali e, restaurado, tomei o meu rumo. Decidira-me a fazer algo. Retomar o pulso. Eu não tinha nenhuma idéia a respeito do próximo passo. Mas decidi dá-lo assim mesmo. Só retornei para casa bem tarde da noite. Passei a mão em uma mochila e espalhei todo o dinheiro pelo corpo. Liguei para um serviço de táxi e saí de novo. Fui até um centro de compras, aberto vinte e quatro horas, e adquiri dois dos menores, mais leves e mais poderosos laptops lançados até então e instalei-me, ainda de madrugada, em um pequeno e horripilante hotel perto da cadeia estadual. A festa só acabou por volta das onze da manhã. Dali seguimos para a casa de umas amigas do meu amigo. Elas eram lindas enfiadas em suas roupas bastante diferenciadas dos demais habitantes locais, e recheadas de adereços com motivos infantis. Algumas chupavam pirulitos enquanto outras divertiam-se com chupetas para recém-nascidos. Quando chegamos à casa delas, masturbaram-se na nossa frente e foram dormir. Tal do release LANÇAMENTO A Teoria das Sombras De Lehgau-Z Qarvalho A Teoria das Sombras é o que podemos chamar de um road-book. O livro trata da história de um personagem que sai de casa em busca de si mesmo, e cai na estrada para nunca mais voltar... ao que era. Em meio a “filosóficos assassinatos”, na tentativa de descobrir quem são os verdadeiros responsáveis pela miséria humana, está, ninguém menos que, o amor. Em companhia da sensibilidade e da paixão verdadeira e abnegada. E sexo. Muito sexo. Seriam realmente esses os elementos que podem tornar a vida, de fato, colorida?! A Teoria das Sombras é o trabalho de estréia do escritor Lehgau-Z Qarvalho pelos complexos meandros da narrativa longa. Por vezes enveredando pelos caminhos do ensaio, além de oferecer um excelente entretenimento, arrisca, o personagem, também, a lançar “algumas sombras” sobre a era pós luzes. “Ao primeiro gole, minha alma passou a colorir-se, paulatina. Os olhos se posicionaram novamente em sua órbita habitual e meu cérebro se expandiu até preencher por inteiro a caixa craniana. Eu estava de volta. Para provar a mim mesmo como as pequenas e corriqueiras coisas podem salvar nossas vidas. Levantei-me dali e, restaurado, tomei o meu rumo. Decidira-me a fazer algo. Retomar o pulso. Eu não tinha nenhuma idéia a respeito do próximo passo. Mas decidi dá-lo assim mesmo.” (Trecho de A teoria das Sombras) “Lehgau-Z Qarvalho, como todo escritor, faz uma promessa a seu leitor, e essa promessa ele a cumpre, a de contar uma boa história. E ela começa quando o protagonista encontra e se apaixona por Simone, e o ‘de Beauvoir’ não será apenas um acaso. Não vou dizer quando termina, nem o que acontece a esse amor. Procure. Isso não será difícil. É só deixar-se levar pelas artes da literatura que estão, em pleno, neste livro.” Luiz Antonio de Assis Brasil (Trecho do prefácio de A teoria das Sombras) Lehgau-Z Qarvalho é jornalista por formação; artista gráfico por impulso; músico por amor e escritor por compulsão. Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul; e renasceu na Internet, mundo. Contatos: Skype: lehgau-z Lançamento em 04 de outubro, às 19 horas, na Palavraria – Livraria e café (Vasco da Gama, 165 – Bairro Bom Fim, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil – 51 3268 4260). A Teoria das Sombras – De Lehgau-Z Qarvalho – 118 páginas – Oikos Editora COMING SOON __________________________________ Expediente Caso você não queira mais receber o KHzine diretamente em sua caixa de mensagens, nada poderemos fazer a respeito. Mas você pode tentar um mandinga que, dizem, já deu certo com outros veículos inoportunos como este: Diga Oh, shit, Oh shit, Oh shit, três vezes (o que dará, ao final, nove Oh shit, capice?!). Depois tome um bom banho, escove os dentes, penteie bem os cabelos (se ainda os tiver), fique bem cheirosinho(a), meta um sorriso entre o nariz e o queixo, convide os amigos, a família e a turminha, e vá para o lançamento do livro do Lehgau-Z, no dia 04 de outubro, às 19 horas, lá na Palavraria (Vasco da Gama, 165, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, Connecticut). Só não esqueça de, ao final do sortilégio, mandar um e-mail para: ou envie uma missiva para: Rua Nossa Senhora do Cantinho Perdido, Beco C, Nova Caledônia, Ilhas Norfolk, Connecticut, contendo a seguinte frase: “Muito me agrada o fato de ter algum fato para me agradar”. Ou “Eu sou a favor de toda e qualquer teoria que contenha sombras, mas não me pergunte o porquê”. Caso você queira continuar recebendo, permaneça como está. (Mas vá para o lançamento do livro do Lehgau-Z, no dia 04 de outubro, às 19 horas, lá na Palavraria (Vasco da Gama, 165, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, Connecticut – Porém, não esqueça, chegue cedo para pegar um lugar bem na frente!). Demais contatos infundados podem ser perpetrados através de: Se você quiser passar este amontoado de inépcias adiante, o problema é seu. Mas nós agradeceríamos do fundo de nossas sinapses. O KHzine não se responsabiliza por absolutamente nada. Como dizia o grande mestre e cabeção Rui Barbosa (em parceria com Wilson Simonal): “Nem vem que não tem”. Sem mais delongas: Lehgau-Z Qarvalho – O escritor. Ottomano Vibe – O divulgador. O Resto – Saíram todos correndo em direção à livraria mais próxima.
Fonte de água pura e cristalina. Seja água abundante para quem tem sede de amor, de carinho, de força, de apoio, de diretriz. Se você não tem nenhum motivo para ser feliz, seja feliz por ser fonte. Por ser procurado por aqueles que precisam de você.
Seja Porto...
Porto de chegada de almas cansadas, seja porto para aqueles que andam perdidos pelo mundo, e que precisam de um lugar tranqüilo para descansar o fardo que carregam. Para ser porto de chegada, abrace, afague, receba, dê boas vindas. Seja porto de saída, saída para quem precisar partir, despedindo-se das ilusões, das dores, dos fracassos e decepções, partindo para uma vida melhor, para isso, ajude, apóie, converse, estenda as mãos, ouça, oriente. Seja também porto seguro, para quem te ama e te precisa, porto seguro para os amigos, para a família, para quem precisar. Para ser porto seguro, esqueça o ego e pense no próximo, esqueça suas dores e amenize as dores do próximo. Esqueça sua fraqueza e se torne forte para os outros. Se você não tem motivos para ser feliz, seja feliz por ser porto, para receber aqueles que procuram por ti.
Seja Ponte ...
Ponte que liga a vida terrena à eternidade do céu. Para ser ponte, compreenda, perdoe e deixe as pessoas passarem por você. Para ser ponte, esteja no fim da estrada daqueles que não encontram o caminho de volta. Seja a passagem, e não o atalho, seja o caminho livre e não o pedágio. Se você não tem outro motivo para ser feliz, seja feliz por ser ponte. Ponte significa união, ligação, laços de afeição.
Seja Estrada...
Estrada longa, gostosa de passear, estrada iluminada de dia pelo sol e de noite pelo luar. Seja estrada que guia, estrada que conduz a outros caminhos. Se você não tem outro motivo para ser feliz, seja feliz por ser estrada, estrada dos peregrinos da vida, estes plantarão flores aos seus pés. Seja estrada para os caminhantes do tempo, estes regarão as suas flores. Seja estrada para os andarilhos do mundo, estes poderão colhê-las, e sentir o seu perfume.
Seja Estrela...
Seja a estrela que mais brilha no firmamento. Seja a estrela inspiradora dos poetas, dos românticos e apaixonados. Para ser estrela, ilumine os que te cercam, distribua luz gratuitamente. Seja estrela guia, estrela da sorte. Se você não tem outro motivo para ser feliz, seja feliz por ser estrela, por que as estrelas estão sempre no alto, são soberanas por que guiam os navegantes.
Seja Chuva...
Chuva que molha os corações secos, vazios de amor, de esperança, de paz. Seja chuva que inunda os campos áridos, que molham os jardins, que dá vida a toda vegetação, e faz transbordar os rios. Se você não tem outro motivo para ser feliz, seja feliz por ser chuva, a chuva é sempre esperada, por que dela depende a continuidade de toda a humanidade.
Seja Árvore...
Árvore que dá frutos para quem tem fome, que dá sombra e refresca o árduo calor dos caminhantes que seguem pela vida. Seja árvore que aninha, que acolhe os passarinhos, que enfeitam os quintais. Se você não tem outro motivo para ser feliz, seja feliz por ser árvore. Por que ser árvore é ter raízes sólidas e profundas. É ter braços que se alongam, que se estendem... É produzir flores para enfeitar a alma de alguém, é ser forte e enfrentar temporais. É ter suas folhas embalados pelo vento, é ser molhada pela chuva, e acalentada pelo sol, é fazer parte da criação, como um ser único.
Ser Fonte, ser Porto, ser Ponte ou Estrada, ser Estrela, ser Chuva ou ser Árvore... É servir a Deus... a si mesmo..e a todos os seres humanos !!! **ANA** FELIZ ANIVERSÁRIO...MESMO ATRASADO É DE CORAÇÃO !!! Que você seja fonte de toda a alegria e, de muito mais para todos nós...que seja... ** QUE DEUS ILUMINE TODOS OS TEUS CAMINHOS** Beijos no coração Cida
Desejo Carlos Drumond de Andrade Desejo a você... Fruto do mato Cheiro de jardim Namoro no portão Domingo sem chuva Segunda sem mau humor Sábado com seu amor Filme do Carlitos Chope com amigos Crônica de Rubem Braga Viver sem inimigos Filme antigo na TV Ter uma pessoa especial E que ela goste de você Música de Tom com letra de Chico Frango caipira em pensão do interior Ouvir uma palavra amável Ter uma surpresa agradável Ver a Banda passar Noite de lua Cheia Rever uma velha amizade Ter fé em Deus Não ter que ouvir a palavra não Nem nunca, nem jamais e adeus. Rir como criança Ouvir canto de passarinho Sarar de resfriado Escrever um poema de Amor Que nunca será rasgado Formar um par ideal Tomar banho de cachoeira Pegar um bronzeado legal Aprender uma nova canção Esperar alguém na estação Queijo com goiabada Pôr-do-Sol na roça Uma festa Um violão Uma seresta Recordar um amor antigo Ter um ombro sempre amigo Bater palmas de alegria Uma tarde amena Calçar um velho chinelo Sentar numa velha poltrona Tocar violão para alguém Ouvir a chuva no telhado Vinho branco Bolero de Ravel... E muito carinho meu. Feliz Aniversário! Que todos os momentos de sua vida sejam cheios de muita luz e energia, assim como a poesia de Drumond. BEIJOS, Denise
cerejacerejeiracerejandocaiemfloresetrazfrutasuculentadocecarmimtuabocapinta. Ana.
Abobrinhas (Itamar Assumpção/Alice Ruiz) Cansei de abobrinhas Vou consultar escarolas Prefiro escutar salsinhas Pedir socorro às papoulas E as carambolas Pedir um help ao repolho Indagar algumas espigas Aprender com pés de alho sobre bugalhos Ouvir dicas das urtigas E dessas tulipas Vou pedir um toque pro miosótis Um plapite pro alpiste Uma luz pra flor de lótus Pedir alento ao cipreste E pra dama da noite Um bom conselho a sorralha Sugestão pro almeirão Idéias para as azaléias Opinião para o limão pimentão Abobrinhas Na vida sou passageiro com queda pra macumbeiro talento para adventista Hoje sou equilbrista de dia sou cozinheiro à noite viro massagista sou galo no meu terreiro nos outros baixo a crista me calo feito mineiro no mais.. no mais, vida de artista (Itamar) ........................ Um homem com uma dor é muito mais elegante Caminha asim de lado como se chegando atrasado andasse mais adiante Ópios, édens não me toquem nessa dor ela é tudo q me sobra sofrer vai ser minha última obra (leminsky)
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